Da Lenda à Canção: como o Guaraná e Maués viraram música na voz de Fred Jobim

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Manaus,24/02/2026

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Anderson Cleuber

Da Lenda à Canção: como o Guaraná e Maués viraram música na voz de Fred Jobim

A canção que se tornou um símbolo de identidade, celebrando raízes e conquistando coraçõe

Produção
Da Lenda à Canção: como o Guaraná e Maués viraram música na voz de Fred Jobim Produção

Algumas canções são escritas para rádios e playlists. Outras, mais raras, nascem para serem entoadas à beira de um rio específico, sob o céu de uma cidade com nome, cheiro e história. Pássaro do Mundo é deste último time. Ela não caiu pronta do céu; ela brotou da terra úmida de Maués, regada pelas águas do Maués-Açu e adubada com o pó sagrado do guaraná. É menos uma composição e mais um fruto maduro para a Festa do Guaraná.

Quem ouve pela primeira vez, sem saber do berço, pode pensar se tratar de um belo canto indígena, uma declaração universal de pertencimento. E é. Mas quem conhece Maués, quem já sentiu a poeira vermelha da estrada na Festa, quem já viu a procissão de Nossa Senhora da Conceição seguindo para o rio, escuta camadas que vão além do som. Cada verso é uma rua, cada metáfora um lugar.

“Na ponta da maresia, meu descanso minha paz” – é na orla, nos fins de tarde quentes, onde a cidade respira o rio. “Nas sombras dos araçás” – são as árvores frutíferas nos quintais. “No teu rio caudaloso, no remanso a namorar” – é o programa de domingo dos jovens maueenses. Fred Jobim e Selmo Level não criaram uma paisagem imaginária; eles musicaram a geografia sentimental de sua gente.


Fred Jobim e Selmo Level                     Fred Jobim e Selmo Level


Surgida do coração da Amazônia, "Pássaro do Mundo" é a fusão perfeita entre a poesia enraizada de Selmo Level e a alma musical de Fred Jobim, amazonenses que transformaram o afeto por sua terra em canção. Mas é na voz grave e serena do próprio Jobim que a obra encontra sua plenitude: sua interpretação não é apenas um canto, é um ato de pertencimento — como se o rio, a floresta e a lenda do guaraná cantassem através dele, elevando o hino local à condição de patrimônio afetivo de todo o Amazonas.

Mas o verso que dá o nó na alma e explica o porquê da música existir é outro: “Nos olhos de uma criança reza a lenda popular / e a força de seus guerreiros vem do pó do guaraná.” Aqui, a canção para de ser descritiva e assume sua missão sagrada: ela se torna a própria lenda cantada. A lenda que todo maueense conhece – a do curumim morto, dos olhos plantados que germinaram no primeiro pé de guaraná, a dádiva dos céus ao povo Sateré-Mawé. Essa narrativa não é folclore distante em Maués; é a biografia da cidade, o motivo da sua festa mais importante, a explicação para seu orgulho.

Por isso, Pássaro do Mundo não é uma canção sobre a Festa do Guaraná. Ela é um ato da festa. Ela é o momento em que os alto-falantes param de tocar forró eletrônico e a voz coletiva se reconhece. Quando soa, é como se o espírito do guaraná, aquele que dá força aos guerreiros, descesse do terreiro e tomasse conta do arraial. O samba, o boi-bumbá, – tudo fica em segundo plano. A música pede silêncio e reverência. É o hino cívico de uma nação chamada Maués.


O milagre da composição está em sua dupla natureza. Ela é profundamente local (só quem é de lá entende todas as referências íntimas) e, ao mesmo tempo, é universal. O “pássaro do mundo” consegue o feito de ser, simultaneamente, a ave que pousa no galho de um araçá no quintal de uma casa maueense e a ave que voa alto o suficiente para que qualquer pessoa, em qualquer lugar, que já buscou suas raízes, possa se identificar.

Ao final, a canção pede proteção: “Conceição, ó Virgem Santa, dei-me sua proteção.” É o abraço final, o sincretismo completo. A santa católica que é padroeira da cidade abençoando o canto que celebra a lenda indígena. Em Maués, não há contradição. Há apenas fé. E Pássaro do Mundo é, no fim das contas, um ato de fé.

Fé de que uma cidade do interior do Amazonas pode produzir beleza que atravessa fronteiras. Fé de que sua cultura não é coisa de museu, mas matéria viva para a arte. Fé de que o guaraná, mais que um fruto ou um refrigerante, é uma história de ressurreição que merece ser cantada.

Por isso, quando você ouvir Pássaro do Mundo, não ouça apenas. Tente escutar, por baixo dos acordes, o barulho do Maués-Açu, o cheiro do guaraná torrado, o riso das crianças na festa, o rezar na igreja matriz. Porque essa canção não veio para entreter. Ela veio para levar Maués para o mundo, asas de guaranaíba, raízes no barranco do rio.



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