Crônica: A Dica Eterna de Chico da Silva

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Manaus,24/02/2026

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Anderson Cleuber

Crônica: A Dica Eterna de Chico da Silva

Do Barquinho à Alma: A Manaus eterna no violão de Chico da Silva

Arte Produção
Crônica: A Dica Eterna de Chico da Silva DOMINGO EM MANAUS

Crônica: A Dica Eterna de Chico da Silva

Era um domingo qualquer, mas poderia ser um sábado, uma quarta-feira. O verão amazônico, eterno e úmido, pesava sobre a cidade que cresceu para cima, para os lados, e se esqueceu um pouco de si mesma. No fone de ouvido, a voz despretensiosa de Chico da Silva, amazonense da Ilha Encantada de Parintins, pintava um roteiro dos anos 70. E eu, no final de 2025, fui navegando por suas dicas.

A música começa com um desejo simples, quase um suspiro: banhar-se “na ponta negra”. Hoje, a Ponta Negra é um cartão-postal esculpido, com calçadão, ciclovia, arquibancadas de concreto e um anfiteatro que mais parece uma nave espacial pousada à beira-rio. O banho talvez ainda exista, mas é preciso furar a barreira dos vendedores de coco, dos skatistas, dos celulares erguidos em selfies contra o pôr-do-sol. A dica permanece, mas o ritual mudou. O rio é o mesmo, preto e reflexivo, mas o espelho agora devolve a imagem de uma cidade frenética.

Ele sugere então “uma chegadinha no famoso Tarumã”. O famoso. O termo ecoa com uma saudade do que era comum, do que era conhecido por todos sem precisar do algoritmo do Instagram. O Tarumã de hoje, cercado pelo concreto e a impermeabilidade do asfalto não recebe mais banhistas e os vestígios do balneário simples, do banho de rio e da farofa com tambaqui. A “ponte da Bolívia” – a Ponte Rio Negro – já não é apenas uma ponte; é um símbolo da expansão, do ligar o que antes era isolado, uma artéria por onde corre o sangue pesado das carretas, conectando Manaus a um mundo que Chico da Silva talvez só visse nos mapas.

Aí está o pulo do gato da crônica musical: “Menina, quando entro nessa onda, esqueço até o amanhã”. Essa “onda” é o estado de graça do manauara, a capacidade de, mesmo com o calor de 35°C e a umidade a 80%, encontrar a poesia no contraste “areia branca e água preta”. É um antídoto. Sempre foi. Enquanto ele desce o rio de barquinho, curte o “panorama da cidade”. Hoje, esse panorama ganhou espinhos de concreto, mas a linha do horizonte onde a floresta se encontra com a urbe ainda é uma das vistas mais hipnóticas do planeta. A dica permanece válida: ver Manaus do rio. É a única perspectiva que ainda a faz inteira.

E então, o refrão, que soa menos como um conselho turístico e mais como uma prescrição espiritual para os tempos modernos: “Resolvi falar pra quem não visitou e conheceu Manaus. Tô dando a dica que resolve logo que tua alma vai sair do caos”.

Sair do caos.

Em 2025, isso soa menos como convite e mais como grito de socorro universal. A Zona Franca que ele cita, “colorida e tentadora”, ainda prende o forasteiro, mas agora em shoppings labirínticos e em vitrines de eletrônicos globais. A cuia para o tacacá, no entanto, resiste. É o objeto sagrado que ancora a identidade. Tomar um tacacá no Mercado Municipal ou num carrinho de rua ainda é um ato de resistência cultural, um mergulho em sabores que a internet não pode digitalizar.

“Convida a morena cor de jambo…” Os flertes agora passam por telas, os sorrisos brejeiros são emojis. O “cuidado, meu amigo, muita calma, vai com jeito, devagar” é um conselho de ouro para uma era de matches descartáveis e conversas efêmeras. A “estrada colorida” talvez seja a Avenida das Flores, mas também pode ser o fluxo infinito de stories e feeds que nos levam, não mais ao Vivaldão (o antigo estádio, hoje um lugar de memória), mas a um universo virtual de entretenimento.

Chico da Silva, em sua simplicidade profética, não estava apenas descrevendo um passeio dominical. Ele estava arranjando um ritual de fuga do próprio tempo – qualquer tempo. Sua Manaus dos anos 70 era o refúgio do caos da vida de então. Hoje, suas mesmas imagens – o rio, o banho, a cuia, o tacacá, o olhar para o panorama – são o refúgio do caos do agora.

A dica, afinal, não resolve apenas para quem não conhece Manaus. Resolve, sobretudo, para quem vive nela e se perdeu no seu ritmo alucinado. A música é um mapa atemporal. Basta pausar o streaming da vida, pegar um barco imaginário e descer o Rio Negro da memória. A alma, de fato, sai do caos. Mesmo que por apenas três minutos e meio de um domingo, seja ele qual for.

Há compositores que fazem hóspedes. E há compositores que fazem filhos. Chico da Silva, amazonense de raiz e poesia, não nos convidava para visitar Manaus. Ele nos adotava por três minutos de melodia, nos tomava pela mão com a cadência suave do ritmo e nos apresentava a cidade como quem apresenta a própria mãe: com um misto de orgulho, ternura e intimidade absoluta.

Sua música não era um folheto turístico. Era um diário de bordo escrito na linguagem universal do afeto. Em seus versos simples, despretensiosos, morava uma sabedoria geográfica e existencial. Ele não cantava monumentos; cantava esquinas da alma. A “ponta negra” era mais que um lugar; era um estado de espírito. O “Tarumã” não era um ponto no mapa, mas uma memória coletiva. A “cuia do tacacá” era um objeto sagrado, um talismã contra o esquecimento do sabor da terra.

Chico era o amigo que sussurra no ouvido no momento certo. “Vai com jeito, devagar”, aconselhava, numa era que já começava a acelerar. E seu refrão era um bálsamo, uma promessa: “sua alma vai sair do caos”. Ele sabia, profeticamente, que o caos não era um endereço específico, mas uma condição humana. E oferecia o seu rio, a sua tarde de domingo, o seu panorama como antídoto.

Sua grandeza não está em arranjos complexos ou metáforas rebuscadas. Está na fidelidade cristalina ao que ele amava. Ele transformou o cotidiano manauara em mitologia. Fez do passeio de barquinho uma epopeia, do flerte na beira-rio um poema, e do simples ato de tomar um tacacá um ritual de pertencimento.

Por isso, Chico da Silva não pertence apenas aos anos 70. Pertence a todo domingo de verão que ainda existe no coração de quem busca um pouco de calma. Pertence a todo forasteiro que chega e, ao ouvi-lo, sente o chamado da floresta e das águas. Pertence, sobretudo, a todo manauara que, em meio ao asfalto e ao calor do progresso, precisa se reconectar com a cidade dócil e charmosa que ele eternizou.

Hoje, quando o Vivaldão é memória, a Ponte é realidade e a cidade se reinventa a cada dia, as palavras de Chico soam como a voz constante do rio: seguem fluindo, marcando o ritmo, lavando a alma, lembrando a todos nós de onde viemos e para onde podemos sempre voltar em busca de paz.

Obrigado, Chico. Por ser o nosso guia, o nosso poeta e, acima de tudo, o filho mais amoroso que esta Manaus de águas negras e coração quente já teve. Sua música não é um registro do passado. É o rio que nunca para de correr, carregando em seu leito a identidade viva de um povo.



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