A travessia de 1.700 km que expõe o isolamento extremo da Amazônia Ocidental

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Manaus,24/02/2026

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A travessia de 1.700 km que expõe o isolamento extremo da Amazônia Ocidental

"Por Estradas e Fronteiras: A jornada de Jair Souto para mapear o abandono"


A travessia de 1.700 km que expõe o isolamento extremo da Amazônia Ocidental

Em um estado onde os rios são as estradas, uma equipe liderada pelo ex-prefeito de Manaquirí Jair Souto realizou uma jornada terrestre épica de quase 1.700 quilômetros para evidenciar um paradoxo geográfico brutal: para chegar a um município do Amazonas, é preciso cruzar dois estados. A expedição partiu de Manaus, desceu a precária BR-319, entrou em Rondônia, passou por Porto Velho, subiu para o Acre, atravessou Rio Branco, Sena Madureira e Feijó, para, finalmente, embarcar em um voo rumo a Envira, no sul do Amazonas. O percurso, que durou 3 dias, é a tradução concreta do isolamento logístico que define — e asfixia — a vida de milhares de brasileiros na região.

"No interior do Amazonas, a logística é um desafio diário. Grandes distâncias e a dispersão territorial impactam diretamente o trabalho, o transporte de alimentos e medicamentos, o escoamento da produção, o turismo e tantas outras necessidades. Tudo isso exige planejamento, sensibilidade e políticas públicas pensadas para quem vive longe dos grandes centros" explica Souto.

A BR-319: O Corredor da Incerteza

O primeiro trecho da saga é um símbolo nacional de abandono: a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. A estrada, em alguns trechos um tapete de lama e buracos na estação chuvosa e de poeira e ondulações perigosas na seca, não é uma via, mas uma barreira sanitária e econômica. “Ela não integra, ela separa”, descreve Souto. “O transporte de alimentos fica mais caro, as frutas apodrecem nos caminhões, os medicamentos têm prazos vencidos pela demora, e os pacientes graves enfrentam uma via-crúcis para chegar a um hospital de referência.” A expedição viu de perto o custo humano dessa desconexão: comunidades que, mesmo a poucos quilômetros da faixa de asfalto intermitente, vivem em regime de quase autossuficiência forçada, entregues à própria sorte.

A Volta pelo Acre: A Geografia que Ninguém Planejou

O fato de ter que sair do Amazonas, entrar em Rondônia e subir ao Acre para acessar outro município amazonense (Envira) escancara a descontinuidade territorial e a falha histórica nas políticas de integração. “Isso não é um detalhe curioso do mapa. É um problema crônico de gestão pública”. A população daquela região — incluindo municípios como Envira, Eirunepé e Guajará — vive em um limbo logístico. Sua ligação natural com Manaus é interrompida pela inexistência de estradas e pela dificuldade de navegação em certos trechos dos rios. O caminho mais viável, muitas vezes, é justamente o mais longo: ir para o Acre.

O voo de Feijó (AC) para Envira (AM) é a cereja desse bolo da desconexão. Um trecho de poucos minutos de avião separa o que, por terra e por uma lógica de planejamento inexistente, são mundos à parte. O transporte aéreo, porém, é caro, escasso e sujeito ao clima, inviabilizando o escoamento de produção e o acesso a serviços básicos com regularidade.

O Custo Real do Isolamento

A reportagem da expedição constatou que esse isolamento tem um preço medido em:

  • Alimentos mais caros: O “custo BR-319” inflaciona produtos básicos.

  • Saúde interrompida: Campanhas de vacinação, medicamentos de uso contínuo e atendimento especializado não chegam com regularidade.

  • Economia engessada: Produtores rurais veem sua produção perecer antes de chegar ao mercado, por falta de uma rota comercial eficiente.

  • Êxodo forçado: Jovens e famílias migram para buscar estudo, saúde e oportunidade, esvaziando comunidades.

Um Grito por Política Pública com Sensibilidade Geográfica

A expedição de Jair Souto e sua equipe não foi uma aventura, mas uma missão de documentação. Seu objetivo é levar aos centros de decisão a realidade gritante de que políticas públicas padronizadas falham redondamente na Amazônia Profunda. “Precisamos de soluções que nasçam do chão, que entendam que para conectar Envira a Manaus, talvez a saída não seja uma estrada faraônica, mas um conjunto de medidas: hidrovias eficientes, voos regionais subsidiados, telemedicina e armazenamento local de insumos”, defende Souto.

A jornada de 1.700 km revela, no fim, uma distância muito maior: a que separa a realidade dos ribeirinhos e seringueiros do Amazonas Ocidental das mesas de planejamento em Brasília e das discussões legislativas do parlamento do Amazonas. Enquanto a logística for um desafio épico, o desenvolvimento permanecerá uma promessa distante, do outro lado do rio, do outro lado do estado, do outro lado do país.


O relato da expedição de Jair Souto culmina em um desfecho que não é um ponto final, mas um sinal de alerta erguido no meio da floresta:

O silêncio ao pousar em Envira, após dias de estrada, não trouxe alívio, mas a constatação definitiva. A poeira da BR-319 ainda impregnava as roupas da equipe quando avistaram, do ar, o contorno do município amazonense — uma mancha verde isolada, acessada apenas por quem primeiro deixa o estado.

Dialogar sobre viver na Amazônia é essencial. A sociedade amazonense precisa ser ouvida. É a partir da escuta, da relação com o Legislativo Estadual e do contato direto com quem vive às margens das estradas e dos rios que se constroem políticas públicas de verdade.

Em solo, Souto encontrou a tradução humana dos 1.700 quilômetros percorridos: Maria, agricultora, que viu sua produção de cupuaçu encalhar porque o frete para Manaus custaria mais que o lucro; e o agente de saúde Francisco, cuja mala térmica de vacinas depende de uma logística tão frágil quanto um voo em dia de chuva. Suas histórias não são exceção. São a regra de uma região que, paradoxalmente rica em terra e água, vive uma pobreza logística imposta pela geografia e pela negligência.


O final dessa viagem não é uma chegada, mas um recomeço. As anotações, as imagens e os relatos colhidos não vão para um arquivo. Transformam-se em um documento vivo, um mapa das urgências que Souto e sua equipe levam agora a fóruns, audiências e mesas de discução. O objetivo é claro: substituir a epopeia individual por políticas públicas coletivas. Para que, no futuro, a ligação entre dois pontos do Amazonas não exija mais cruzar fronteiras estaduais, e o desenvolvimento não seja um destino acessível apenas para quem tem fôlego — e combustível — para uma jornada de quase dois mil quilômetros.

A expedição termina. A luta por infraestrutura, sensibilidade e integração verdadeira, no entanto, acaba de encontrar seu ponto de partida mais eloquente: a realidade nua e crua de quem espera, não por um salvador da pátria, mas por uma estrada, uma ponte, uma rota. Por um direito básico: o de chegar.




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