Anderson Cleuber
A Candeia de Célio Cruz que Ilumina a Rua
A poesia atemporal e o brilho da MPB amazônica no clássico de Célio Cruz
Há cidades que fazem barulho com buzinas, sirenes e pressa, mas Manaus guarda em seus refúgios um som particular, tecido nas frestas da tarde e no sopro do vento sobre as águas. É nesse compasso íntimo que a arte de Célio Cruz se sustenta, como uma lamparina acesa no meio da noite para lembrar que a canção popular também é um lugar de afeto.
"Candeia de Estrelas" é o aclamado álbum de estreia do cantor, compositor e violonista amazonense Célio Cruz, lançado originalmente em 1995.
O disco é uma referência importante da MPB produzida no Amazonas. A faixa-título que dá nome ao álbum rendeu a Célio Cruz premiações de destaque — como melhor música, melhor arranjo e melhor intérprete no Festival Universitário da Canção de Blumenau (SC) em 1992 —, consolidando sua trajetória iniciada nos festivais universitários da década de 1980.

Quem ouve o violão e a voz de Célio percebe de imediato que ele não canta apenas sobre a Amazônia; ele canta a partir dela, emprestando à MPB a feição exata de quem conhece o cheiro da chuva forte batendo no asfalto quente e o reflexo prateado do rio.
Lá atrás, nos palcos dos festivais que moldaram gerações, sua música já trazia o fôlego dos dias de luta e poesia. Mas foi quando uniu o verbo ao lirismo de Candeia de Estrelas que ele nos entregou uma das imagens mais belas da nossa música: a vontade de enfeitar a calçada, de acender o lampião da esperança e preparar o espírito para quando o amor decidir passar ou voltar.
Escutar esse clássico atemporal é quase um exercício de resgate urbano e emocional. É como se a cidade barulhenta silenciasse por um instante para dar passagem a um "coração de menino", embalado por acordes que trazem a dignidade de quem escolheu fazer da arte um ofício de entrega.
Célio Cruz continua a ser essa presença necessária — a candeia firme que teima em brilhar, mostrando que, por mais densa que seja a noite, a alma amazonense sempre terá uma poesia pronta para iluminar a rua.
Acendo a minha paixão
Antiga luz bem guardada
Nas malhas do coração
Ainda brilha renovada
Sopro de amor verdadeiro
Espelho d'água mais clara
Mulher tu tens o segredo
De iluminar minha cara
Candeia de estrelas
Para enfeitar a rua
Quando o meu amor passar
Candeia de estrelas
Para enfeitar a rua
Quando o meu amor voltar
Canção de amor desvairado
Na lira do meu destino
Traço com todo cuidado
Meu coração de menino




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