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Manaus,04/07/2026

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Anderson Cleuber

Além das fronteiras e das curvaturas: O Brasil que trabalha versus o Brasil que se submete

Enquanto o país busca construir sua própria história, uma linhagem política insiste em vender a soberania brasileira

Produçao
Além das fronteiras e das curvaturas: O Brasil que trabalha versus o Brasil que se submete

O 4 de julho, sob o céu de verão dos Estados Unidos, celebra-se o nascimento de uma nação pautada, ao menos no discurso fundante, pela soberania e pela busca da liberdade. Contudo, do outro lado do Equador, em certos círculos de poder e influência no Brasil, a data parece servir menos a uma reflexão sobre independência e mais a uma demonstração pública de subalternidade.

Para a família Bolsonaro e seus seguidores mais fervorosos, a nação americana não é apenas um país parceiro ou uma potência global; é uma espécie de Meca política, um altar onde se deposita a lealdade que deveria ser reservada ao próprio solo brasileiro. Observá-los no 4 de julho é assistir a um exercício de contorcionismo diplomático: curvam-se diante da política atual de Washington em um gesto que beira a devoção. É uma "baixa de cabeça" estratégica, um desejo quase visceral de serem aceitos como o apêndice ideológico de um projeto que, muitas vezes, vê o Brasil apenas como uma peça de xadrez em um tabuleiro alheio.

Há algo de melancólico nessa postura. Enquanto lutam para importar modelos que pouco se ajustam à nossa realidade, muitos desses atores parecem empenhados em promover o desgaste das instituições nacionais, como se o sucesso do Brasil fosse um entrave ao seu projeto de poder. Eles operam em uma lógica de inversão: o que é ruim para o interesse soberano brasileiro — o desmonte de políticas públicas, a instabilidade institucional ou a retórica do ódio — é defendido com o vigor de quem acredita estar protegendo algum valor supremo. Para eles, o "melhor para os EUA" é um axioma, mesmo quando esse melhor sacrifica o interesse do trabalhador ou do produtor que, na prática, é quem sustenta o país.

A analogia com o 4 de julho revela, portanto, uma contradição flagrante. Os Estados Unidos construíram sua independência sobre a ideia de que um povo deve ser senhor do seu próprio destino. O bolsonarismo, ao contrário, construiu sua trajetória na busca incessante por um padrinho estrangeiro, alguém que valide suas idiossincrasias e lhes confira uma aura de relevância que não conseguem sustentar por méritos próprios.

No entanto, é preciso separar a obsessão política da realidade cotidiana do brasileiro. Nós, brasileiros, como tantas outras nações ao redor do globo, temos uma relação orgânica e natural com o que vem dos Estados Unidos. Consumimos sua cultura, assistimos aos seus filmes, utilizamos suas tecnologias e apreciamos o que a inovação americana tem de melhor. Essa admiração é madura e consciente. Ela não exige a submissão de nossa dignidade nem o sacrifício de nossa soberania.

Gostamos do que o mundo gosta nos EUA: a criatividade, a eficiência, a capacidade de gerar produtos que alcançam todos os cantos do planeta. Mas, ao contrário daquela família que venera os EUA por conveniência e questões meramente pessoais, a grande maioria dos brasileiros sabe distinguir a admiração por um país de um projeto de poder que, para se manter de pé, precisa se curvar diante de interesses que, muitas vezes, são os primeiros a ignorar o nosso valor.

Neste 4 de julho, que a independência seja, acima de tudo, o exercício de olhar para o Norte com o respeito que se deve a um parceiro, mas com a altivez de quem sabe que o destino do Brasil é escrito, prioritariamente, aqui, em português e com as cores de nossa própria terra.



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