Amazônia: Entre o discurso do clima e a Geopolítica do petróleo

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Manaus,24/02/2026

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Alessandra Del'Agnese

Amazônia: Entre o discurso do clima e a Geopolítica do petróleo

Floresta e os povos Originários

Fonte internet
Amazônia: Entre o discurso do clima e a Geopolítica do petróleo

Amazônia: Entre o Discurso do Clima e a Geopolítica do Petróleo

Uma Crônica sobre a Sombra dos EUA sobre as Florestas e os Povos Originários


Há uma linha que separa o Orinoco do Amazonas. Há outra, mais poderosa e menos visível, que separa Washington de Caracas. E entre essas duas linhas, na vastidão da Amazônia venezuelana e brasileira, os povos originários não são apenas espectadores de uma crise ecológica, mas peões em um tabuleiro geopolítico cujas regras mudam com o vento eleitoral norte-americano. O que podemos esperar? Tudo e nada. Tudo, porque o destino da maior floresta tropical do planeta interessa ao mundo. Nada, porque esse interesse raramente se traduz em compromissos sólidos, mas em intervenções voláteis que deixam cicatrizes.


A influência dos EUA sobre nossas florestas não é um projeto monolítico. É um pêndulo que oscila violentamente entre duas visões de mundo.


A Era Biden: A Diplomacia do Clima e a Soberania Relativa

Sob o governo de Joe Biden, os EUA apresentaram-se como o maior financiador bilateral de ações climáticas do mundo. A visita histórica de Biden à Amazônia em 2024 simbolizou esse momento: promessas de US$ 500 milhões para o Fundo Amazônia, o lançamento de coalizões bilionárias para uma bioeconomia sustentável e o apoio retórico à soberania brasileira. A USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) planejava injetar dezenas de milhões de dólares em projetos concretos: monitoramento territorial indígena, combate a incêndios e desenvolvimento de cadeias produtivas que mantêm a floresta em pé. Era a face de um "neocolonialismo verde", onde a influência se dava por meio de memorandos, fundos e cooperação técnica.


A Era Trump: O "America First" e o Choque de Realidades

Com a volta de Donald Trump ao poder, o pêndulo balançou para o extremo oposto. Em seu primeiro dia, ele determinou uma suspensão de 90 dias em todo o financiamento de ajuda externa, afetando centenas de programas, inclusive os da Amazônia. Projetos essenciais foram paralisados. Um deles, que financiava o monitoramento territorial de terras indígenas em Rondônia, deixou comunidades como a Uru-Eu-Wau-Wau mais vulneráveis a grileiros e madeireiros. A USAID, alvo de Trump, que a chamou de administrada por "lunáticos radicais", teve seu futuro colocado em xeque, e com ele, US$ 16,2 milhões já aprovados para a conservação amazônica. A mensagem é clara: a agenda climática e seus atores são descartáveis. Em seu lugar, surge uma retórica de confronto direto, como o ataque à Venezuela.


O Tabuleiro Geopolítico: Petróleo, Intervenção e a Fronteira em Alerta

O recente ataque militar dos EUA que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro rasgou o conceito de soberania na América Latina. Trump justificou a ação com o combate ao "narcoterrorismo", mas líderes indígenas e analistas enxergam o petróleo venezuelano como o verdadeiro prêmio. Essa escalada militar às portas da Amazônia  na fronteira que o Brasil compartilha com a Venezuela  cria uma zona de instabilidade profunda. Terras indígenas, como as do povo Yanomami, já historicamente invadidas por garimpeiros, agora se veem em uma região que pode se tornar palco de tensões internacionais imprevisíveis. O presidente Lula condenou a ação como uma "afronta à soberania" e uma violação do direito internacional, mas o fato está consumado: a potência hegemônica demonstrou que age onde e quando quer.


Os Povos Originários: Entre a Dependência e a Resistência

Nesse jogo de gigantes, os povos indígenas são os mais impactados e os que possuem menos margem de manobra. A suspensão abrupta dos fundos da USAID expôs a cruel dependência de uma ajuda externa volátil. Líderes indígenas relatam que atividades de proteção territorial tiveram que ser suspensas, aumentando o risco de invasões e colocando suas vidas em perigo. Por outro lado, alguns veem na interrupção uma oportunidade dolorosa para repensar modelos e buscar financiamentos mais autônomos e menos sujeitos aos humores políticos de Washington. A lição é amarga: confiar em promessas externas é construir uma casa sobre areia movediça. A verdadeira soberania ambiental começa com o reconhecimento e o fortalecimento das comunidades que, de fato, protegem a floresta.


O Que Podemos Esperar? A Crônica de uma Incerteza

A crônica, portanto, é a de uma dupla fragmentação. A Amazônia é fragmentada por linhas de fronteira que seus povos originários nunca reconheceram. E a política externa dos EUA é fragmentada por uma instabilidade doméstica que transforma a floresta em moeda de troca.


Podemos esperar:

Mais volatilidade: A proteção da Amazônia seguirá refém da política partidária norte-americana.

Mais pressão geopolítica: A intervenção na Venezuela sinaliza uma disposição de redesenhar o mapa de poder regional, com a Amazônia no centro.

Mais vulnerabilidade para os povos indígenas: Eles continuarão na linha de frente, sofrendo tanto com a destruição local quanto com as decisões tomadas em escritórios distantes.

O avanço da narrativa securitizada: A floresta será cada vez mais enquadrada como uma "zona de risco global" que justifica intervenções sob o disfarce de segurança climática ou combate ao crime.


No fim, a pergunta não é apenas "o que os EUA farão com nossas florestas?", mas "o que nós, sul-americanos, faremos com nossa dependência e nossa união?". A Amazônia não precisa ser salva pelo mundo. Precisa, urgentemente, ser governada por seus países e povos com uma soberania que seja mais do que um discurso, mas um projeto de existência. Enquanto isso não acontecer, seremos eternos colonizados de gravata, aplaudindo ou reclamando conforme a direção do vento que sopra do Norte.


Por, Alessandra Del'Agnese 




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