O último ato do patriarcado ferido

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Manaus,25/02/2026

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Alessandra Del'Agnese

O último ato do patriarcado ferido

Não se engane, não é sobre crime passional

Arte: @farao.stencil
O último ato do patriarcado ferido

Crônica: O Último Ato do Patriarcado Ferido


Os números chegam como socos no estômago: uma mulher é assassinada a cada sete horas no Brasil simplesmente por ser mulher. O último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública escancara a ferida mais de 1.400 feminicídios em um ano. São rostos, histórias, futuros interrompidos. E a pergunta que ecoa, cultural e ancestral, é: por quê? Por que a resposta masculina ao “não”, ao “chega”, ao “vou embora” é tantas vezes a violência final?

Não se engane, não é “crime passional”. É crime de posse. É o ato final de um drama onde o homem se vê não como parceiro, mas como proprietário. A história nos programou para isso. Durante séculos, a mulher foi patrimônio: do pai transferida para o marido. Seu corpo, sua honra, sua vida eram bens a serem guardados, controlados, defendidos. A lei, a religião, a cultura santificaram esse domínio. A independência feminina, então, não é apenas uma mudança de comportamento; é um terremoto sísmico na estrutura milenar do poder masculino.

A Lei Maria da Penha um marco luminoso e necessário, fruto da dor transformada em luta expôs a costura podre. Ela não criou a violência; ela a nomeou, tipificou, tirou da sombra do “problema doméstico”. Mostrou que a agressão não começa com o tapa, mas com o ciúme doentio, o controle sobre as amizades, o isolamento, o xingamento que vai corroendo a alma. A lei é um remédio forte para uma doença cultural profunda. E, como todo remédio, provoca reação. Alguns homens, ao se verem impedidos do controle absoluto pela força da lei, encurralados em sua impotência simbólica, partem para o ato extremo: “Se não é minha, não será de ninguém”.

O comportamento masculino tóxico, nesse contexto, é a encenação patética de um poder que já morreu, mas que o ator se recusa a deixar o palco. É a incapacidade de lidar com o luto do domínio. O fim do relacionamento não é vivido como uma dor afetiva que se supera, mas como uma afronta intolerável ao ego imperial. A frase “em briga de marido e mulher não se mete a colher” era o manto que cobria essa tirania privada. Felizmente, a colher coletiva agora se mete, e como. Mas ainda falta muito.

Os últimos episódios, aqui e no mundo, têm um padrão: a escalada. Ele não acordou decidido a matar. Começou com desdém, depois humilhação, depois ameaça, depois empurrão. A sociedade, muitas vezes, ainda vê as etapas iniciais como “exagero”, “drama”. Até que o episódio final vira manchete, e todos se perguntam, horrorizados, como ninguém viu.

A inteligência emocional que falta a esses homens é a da humildade. A de entender que a mulher não é uma extensão dele, mas um universo autônomo. A de aprender a sentir a rejeição sem transformá-lo em aniquilamento. A de trocar a posse pelo afeto, o controle pelo respeito, a ameaça pela dignidade do adeus.


O grito “nos deixem viver” não é um pedido. É uma ordem da história. É o clamor de todas as Marias, todas as Ângelas, todas as mulheres que querem simplesmente o direito ao fim do dia. Viver não é só não ser morta. É poder terminar um amor sem medo. É poder andar na rua sem olhar por cima do ombro. É poder dizer “não” e ouvir um “está bem” em resposta.

A cura dessa epidemia de arrogância masculina passa por reeducar meninos. Ensiná-los que chorar não os faz menores, que o “não” alheio deve ser respeitado, que sua honra não está entre as pernas de ninguém. Passa por uma justiça célere e eficaz, que faça da Lei Maria da Penha não um papel, mas uma realidade protetora. Passa por nós, sociedade, não mais tolerar o primeiro sinal de podridão a piada misógina, o comentário objetificador, o desprezo disfarçado.

O feminicídio é a ponta do iceberg de um mar de desrespeito. Derretê-lo exige sol, não mais gelo. Exige a coragem das mulheres que denunciam, a eficiência do Estado que protege e a transformação urgente dos homens que precisam aprender, finalmente, a amar sem oprimir, e a perder sem destruir.

Nos deixem viver. Porque viver já é, para uma mulher em um mundo de homens desconstruindo-se a contragosto, um ato revolucionário diário. E toda revolução, um dia, vence.


Alessandra Del'Agnese 





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